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Piometra em bovinos: tratamento com Sincrocio, Lactofur e Gentrin Infusão Uterina

Bovinos

Quarta-feira, 11 de Outubro de 2017

Por Rafael Rodrigues Corrêa e Gabriel Artur Marciano do Nascimento, médicos-veterinários

A piometra é uma doença específica do pós-parto e caracteriza-se pela presença de substância purulenta ou mucopurulenta no útero, havendo distensão do útero e persistência de um corpo lúteo funcional. O desenvolvimento da doença uterina depende da resposta imune da vaca, como também da espécie e da quantidade de bactérias (Sheldon et al., 2006). Mari et al. (2012) relataram que a persistência do corpo lúteo é resultante da lesão severa do útero e da perda de glândulas endometriais que produzem a prostaglandina F2α (PGF2α). Segundo Lewis (2004), essa fase progesterônica suprime a imunidade uterina e as vacas ficam mais suscetíveis a infecções no pós-parto. Kumar (2009) relata que as bactérias Corynebacterium pyogenes, Fusobacterium necrophorum e Bacteroides spp estão relacionadas com os casos mais severos de infertilidade em vacas.

O tratamento recomendado é a administração de PGF2α ou produtos análogos, causando luteólise, comportamento de estro de três a cinco dias após a aplicação, abertura da cérvix e expulsão do conteúdo acumulado e eliminação dos agentes contaminantes do útero em aproximadamente 90% dos casos tratados (Noakes et al., 2001). Os objetivos do tratamento da doença uterina são reverter as alterações inflamatórias que atrapalham a fertilidade e aumentar a defesa e reparação uterina (Sheldon et al., 2006).

 

Descrição do tratamento

Este relato foi realizado na fazenda João Martins, Guatapará, São Paulo, composta por um rebanho de 35 vacas em lactação Girolandas, com média de produção de 19 litros por dia, mantidos em sistema de semi-confinamento e livre acesso à água. Após exame ultrassonográfico realizado pelo veterinário responsável, 30 dias após o parto, observou-se a presença de conteúdo hiperecóico no interior do útero do animal e presença de um corpo lúteo no ovário, caracterizando um quadro clínico de piometra. O animal foi submetido, primeiramente, a um tratamento clínico medicamentoso sistêmico, posteriormente, a lavados uterinos com solução fisiológica (NaCl 0,9%) e antibioticoterapia sistêmica e intrauterina de acordo com a sequência descrita abaixo:

Após 30 dias pós-parto (D+30), durante exame de rotina realizado pelo médico-veterinário responsável, foi notado acúmulo de líquido no útero, palpação retal, porém, sem alteração dos parâmetros fisiológicos e hemograma dentro dos padrões esperados. No exame ultrassográfico foi confirmada a presença de substância com característica hiperecóica no lúmen uterino (fig. 1) e corpo lúteo (fig. 2).


 

Figura 1.
Figura 1

 

Figura 2.

 

Com isso foi iniciado o tratamento como recomendado por Noakes et al., (2001), com administração de 2 mL ou 0,5 mg de PGF2α ou seus análogos (Sincrocio®) pela via intramuscular (D +30). A administração de PGF2α exógena estimula a luteólise, reduz os níveis plasmáticos de progesterona, aumenta a concentração de estrógeno, induz o cio e resolve a infecção uterina (Sheldon et al., 2006). Além disso, foi instituído um tratamento com ceftiofur 3,3 mg/kg (Lactofur®), pela via intramuscular, durante 3 dias (D +30 a D+33) com o intuito de ajudar no combate a infecção bacteriana presente no útero.

Por meio de exame com vaginoscópio e palpação retal, observou-se que o posicionamento da cérvix do animal não favorecia a eliminação do conteúdo uterino, pois a mesma apresentava-se voltada para a porção dorsal do canal vaginal, provavelmente devido ao maior peso uterino que deslocava sua saída para essa posição. Assim no dia (D+34 e +35) foram realizados lavados do útero do animal com aproximadamente 1.000 mL de solução fisiológica no útero com auxílio de um sistema um Y e uma sonda tipo Foley para lavagem uterina. Foi retirado conteúdo sanguinolento no primeiro lavado (fig. 3) e conteúdo mucopurulento no segundo lavado (fig. 4).

Figura 3.

 

Figura 4.

 

No dia (D + 36) foi realizado o último lavado uterino com solução fisiológica. Após a retirada de todo conteúdo, realizou-se infusão com 100 mL de solução intrauterina contendo gentamicina (Gentrin® Infusão Uterina). Nesse momento, o conteúdo estava mais límpido, apresentando poucas estrias de pus (fig. 5).

Figura 5.

 

Após a lavagem, foi realizado um novo exame ultrassonográfico, o qual mostrou acentuada diminuição do conteúdo no lúmen uterino, com pequena quantidade de pontos hiperecóicos (fig. 6). Um novo exame ultrassonográfico foi realizado 14 dias (D+ 50) após o último lavado e pode-se constatar a ausência de líquido no interior dos cornos uterinos (fig. 7), concluindo que o animal não apresentava mais alterações.

 

Figura 6.

 

Figura 7.

 

A descrição do caso confirma que a piometra está presente na bovinocultura de leite. A doença deve ter o acompanhamento veterinário e deve ser tratada o mais breve possível. O uso de cloprostenol (Sincrocio®), ceftiofur (Lactofur®), lavagens uterinas com solução fisiológica (NaCl 0,9%) e solução intrauterina contendo gentamicina (Gentrin® Infusão Uterina) foram eficazes no tratamento clínico da piometra.

 

Referências

Drillich, M. Dynamics of bacteriologic and cytologic changes in the uterus of postpartum dairy cows. Theriogenology, v. 82, p. 1316-1322, 2014. 

Karstrup CC, Pedersen HG, Jesen TK, Agerholm JS. Bacterial invasion of the uterus and ovidutcts in bovine pyometra. Theriogenology, v. 93, p. 93-98, 2017. 

Kumar, P. Applied Veterinary Gynaecology and Obstetrics. International Book Distributing Co. First Edition. Indian Veterinary Research Institute. Izatnagar, Bareilly (U.P.); 2009, p.243-247.

Mari G, Lacono E, Toni F, Predieri PG, Merlo B. Evalution of the effectiveness of intrauterine treatment with formosulfhathiazole of clinical endometritis in pos partum dairy cows.  Theriogenology, v. 78, p. 198-200, 2012.

Noakes DE, Parkinson TJ, England GCW. Arthur’s Veterinary Reproduction and Obstetrics. Eighth edition. Elsevier Limited; 2001. p.399-415

Prunner I, Pothmann H, Wagener K, Giuliodori M, Huber J, Ehling-Schulz M,

Sheldon M, Lewis GS, Leblanc S, Gilbert GO. Defining postpartum uterine disease in cattle. Theriogenology, v. 65, p. 1516-1530, 2006.

 

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